A vida é sonho

18.11.03

O budismo tibetano no Ocidente, por S. Ema. Dzongsar Khyentse Rinpoche

Um amigo de Nova Iorque recentemente me enviou um e-mail com um artigo [escrito por Tara Carreon] intitulado "O buddhismo tibetano está funcionando no Ocidente?" Ainda que minha reação imediata tenha sido um tanto defensiva, tenho de admitir que a autora trouxe vários argumentos relevantes. Pode parecer fútil que eu venha a apresentar ainda outro ponto de vista neste debate aparentemente infindável; porém, muito antes da civilização moderna celebrar a liberdade de expressão, o Buddha já ressaltava o respeito pelo raciocínio, enfatizando que deveríamos examinar um caminho ao invés de segui-lo cegamente.

Ainda assim, é difícil não perceber que, até mesmo nestes chamados "tempos modernos", a fé cega não apenas está viva, mas saltitante, ao ponto de fazer com que pessoas desistam de suas vidas apenas porque algum sacerdote garantiu sua passagem para o paraíso. Não é apenas importante que exercitemos esta liberdade de examinar o caminho e sua autoridade; devemos também estar atentos para a bagagem cultural que o acompanha. Quanto dessa cultura alguém precisa engolir? Ser ocidental significa que faltam à pessoa os atributos para ser buddhista? Estas foram algumas das questões trazidas no e-mail que eu recebi.

Durante anos, lamas tibetanos conquistaram os corações e mentes de muitos no Ocidente, principalmente em virtude da sofisticada sabedoria do Buddha que eles corporificam, mas também porque muitos deles mostram-se gentis e facilmente sorridentes. O fato de que eles são uma espécie em extinção também ajuda, e se alguns deles não projetam suficiente santidade, há sempre um punhado de mestres genuínos que podem ser colocados enfeitando a vitrine. Mas o fascínio inicial está terminando; além disso, alguns ocidentais estão começando a perceber que há uma grande diferença entre buddhismo e cultura tibetana. À medida em que mudam as atitudes sociais, com auxílio da mídia moderna, o escrutínio das figuras públicas e o ceticismo para com supostos caminhos espirituais têm se intensificado. Pela primeira vez, os tibetanos em geral e os lamas em particular têm sido forçados a provar o sabor agridoce da sociedade livre, na qual a liberdade vem acompanhada de responsabilidades e de um olhar escrutinador. Para alguns, está sendo uma dolorosa descoberta de que a popularidade e o sucesso têm um preço.

Com relutância, os tibetanos também estão aceitando que a tentativa de impor o que consideram uma forma superior de viver não está funcionando. Mas, como muitos orientais, os tibetanos ainda se agarram firmemente à sua cultura como se ela fosse a resposta definitiva para tudo, incluindo partes dela que poderiam abandonar para o seu próprio bem. Como se isso não bastasse, muitos têm insistido que seus alunos ocidentais adotem toda a embalagem cultural junto com o buddhismo. É esta confusão entre cultura tibetana e buddhismo que muitos estão tendo dificuldade pra assimilar. Mesmo ensinamentos básicos do buddhismo, como o do refúgio, estão sendo tomados de forma teística devido a explicações inadequadas. Quando entoamos orações como "Eu tomo refúgio no Buddha", raramente lembramos - logo, ignoramos - de seus significados essenciais, como reconhecer que nossa natureza última é o Buddha. Sendo assim, não é surpresa alguma que a autora do artigo se refira aos gurus e à sangha como seus aprisionadores, ao invés de seus libertadores.

Devido ao seu papel de trazer o Dharma para o Ocidente, os lamas têm uma responsabilidade ainda maior pelos ensinamentos do que os alunos ocidentais que estão interessados, mas não familiarizados com eles. Entretanto, ao invés de tornar os ensinamentos acessíveis, alguns lamas tibetanos criaram uma grande segregação dos ocidentais através de uma combinação de seu complexo de superioridade e de sua fundamental falta de respeito para com ocidentais com um insuficiente interesse no pensamento ocidental. A clássica analogia buddhista de paciente, médico e tratamento enuncia que, para diferentes pacientes com diferentes problemas, os médicos devem aplicar o medicamento apropriado. Assim, se os lamas tibetanos ridicularizam a cultura e os hábitos de seus alunos ocidentais como sendo uma total perda de tempo, como poderá o remédio surtir efeito? Eles estão realmente sugerindo que devem ser concedidos para os ocidentais os mesmos ensinamentos concedidos a nômades tibetanos analfabetos? Esta falta de respeito para com os ocidentais por parte dos tibetanos não é recente; eles têm uma concepção muito arraigada de que os ocidentais são bárbaros.

Mesmo antes de 1959, muitos visitantes eram proibidos de entrar no Tibet simplesmente por serem estrangeiros. Poderia-se até mesmo argumentar que os próprios tibetanos são os principais culpados pela perda de seus país, devido a sua xenofobia extrema, seu desdém e rejeição de tudo que for estrangeiro como sendo algo profano. Apesar disso, muitos ocidentais ficam encantados pela hospitalidade tibetana, pela aparente educação e amizade, sem saber que isso origina-se mais de uma obrigação social do que de sinceridade. Por trás da maioria destes rostos risonhos, ainda está a percepção subjacente de que você é um ocidental. Os poucos sorrisos sinceros podem muito bem nascer da esperança de que você possa ser um patrocinador ou, mais recentemente, de que possa ajudar a obter um Green Card.

Outra observação da autora que não pode ser ignorada é a de que as reclamações dos lamas são tão familiares que invocam bocejos. Além de verem a busca dos ocidentais pelo Dharma como superficial e volúvel, os tibetanos a consideram algo como checar com o mindinho a temperatura da piscina, esquecendo que o próprio Buddha encoraja essa atitude analítica. Quanto mais você examinar o buddhismo, mais descobrirá sua grandiosidade. Além disso, os tibetanos rotularem os ocidentais como materialistas é mais do que um pouco irônico, já que a busca material tornou-se uma das principais prioridades entres tibetanos em geral e alguns lamas em particular. Grandes assentamentos de tibetanos competem por tudo, desde o maior mosteiro até as mais recentes e prestigiadas marcas de carro. Se alguns lamas de alta hierarquia vendessem suas tigelas de ouro e prata para chá, poderiam alimentar centenas de etíopes famintos por dias a fio.

É verdade que os tibetanos acham que os ocidentais fazem Dharma shopping e que não conseguem manter segredo sobre os ensinamentos tântricos; mas que culpa têm eles se os próprios Lamas transformam o Dharma em um show itinerante, incluindo performances como mandalas de areia e a dança dos lamas? Seria melhor descobrirmos todas estas falhas dos tibetanos mais cedo do que tarde. Caso contrário, podemos ficar desiludidos, e isso pode ser uma razão para desistirmos do Dharma.

Mas detectar esses erros não é uma tarefa fácil. Gerações de experiência em ser hipócritas deixaram os lamas bastante sutis e sofisticados. Um exemplo é como muitos ocidentais caem no quase irritante teatro da humildade dos lamas, sem perceber que por detrás da cortina acontece uma competição acirrada para sentar no trono mais alto. Essa manobra torna-se mais dramática quando a ocasião envolve um grande público e, mais ainda, se está presente no local um grande patrocinador em potencial, especialmente os de Taiwan, que parecem julgar o valor dos lamas unicamente pelo seu posto ou por quantas letras "S" precedem seus nomes [por exemplo, Sua Santidade...]. A imagem de Gautama com um pote de esmolas e pés descalços caminhando humildemente pelas ruas de Magadha parece ter se tornado mera mitologia.

A influência e o domínio dos lamas no Tibet não apenas enfraqueceu muitos aspectos seculares da vida tibetana, como a arte, a música e a literatura, nas quais os Lamas têm pouco interesse, mas em alguns casos degradou também o Dharma. Não fosse pela visão fundamentalmente não-teísta do buddhismo, a regência dos lamas de visão mais estreita poderia ter sido tão tirânica quanto a do Talibã.

Apesar de sua ênfase em uma atitude ecumênica, muitos Lamas encorajam o sectarismo, resguardando seus discípulos tibetanos possessivamente e os desencorajando de estudar ensinamentos de outras tradições. E, claro, eles têm uma desculpa conveniente: seus alunos ficarão muito confusos se fizerem isso. Desta forma, muitos estudantes tibetanos de uma escola não têm absolutamente a menor idéia das outras tradições, mas isso parece não fazer com que eles parem de difamá-las. Como se não bastasse estar fazendo isso com tibetanos, os lamas também têm treinado ocidentais nesse jogo sectário, e tragicamente estão obtendo sucesso. Eles também invejosamente resguardam seus centros do Dharma no Ocidente, embora muitos sejam meros veículos para gerar apoio financeiro para os lamas e seus mosteiros na terra natal. Ajudar esses ocidentais que estão genuinamente buscando o Dharma, ou facilitar seus estudos, não são seus objetivos fundamentais. Então, a pergunta continua: o buddhismo tibetano poderá um dia funcionar no bárbaro Ocidente? Certamente que irá.

O fato de que o buddhismo pôde ser importado e prosperar no então bárbaro Tibet prova que, apesar da má conduta de seus representantes e de sua cultura estrangeira, o buddhismo pode funcionar e ainda funciona para todos os tipos de nacionalidades, gêneros e bases culturais. Descartar o buddhismo, como a autora parece ter feito, meramente por causa do mau comportamento de alguns poucos tibetanos ou de seu complexo e pitoresco modo de vida, não parece sábio. É importante lembrar que levou-se muitas décadas e gerações de coragem e devoção para estabelecer com firmeza o buddhismo entre os tibetanos. Por que deveríamos esperar que no Ocidente seria de outra forma? Além disso, medir o valor do Dharma através de uma perspectiva materialista ou julgá-lo com a arrogância de uma suposta visão objetiva é perigoso. Pode parecer óbvio que um avião voe e que barcos não afundem, mas quem pode afirmar se uma pessoa é ou não iluminada? Do mesmo modo, deveríamos ser cautelosos quando comparamos sistemas sociais.

O comentário da autora de que a governança social dos Estados Unidos é muito superior à do Rei Trisong Detsen é mal-inferido. Durante o reinado dele, os Estados Unidos ainda nem tinham massacrado milhares de índios americanos, quanto mais ter um senso de governança social. Em contraste, o Rei Trisong teve visão para perceber o valor social do buddhismo. Ele o trouxe da Índia para o Tibet, um país com o qual o Tibet tinha pouco em comum, e o fez apesar de dificuldades terríveis, como a hostilidade dos amantes de sacrifícios da religião Bön. Se não fosse por sua iniciativa, o Tibet poderia ter adotado o estilo de vida sedento de sangue das tribos locais, ou a suposta civilização de confuncionismo sicofântico do seu vizinho, a China. Fora disto, ao afirmar que o Ocidente possui uma excelente compreensão do que significa ser um Bodhisattva e comparar isto com conceitos como humanitarismo ou ativismo social, a autora falha completamente em apreender o sentido do caminho do Bodhisattva. A aspiração de um Bodhisattva transcende a mera simpatia pelos seres desamparados ou em necessidade. Possuir este tipo de compaixão invariavelmente leva-nos a nos tornarmos co-dependentes, inseguros e finalmente egoístas, pois acabamos nos definindo a partir de quanto ajudamos os outros.

Em contraste, os Bodhisattvas não possuem apego aos seus atos de ajuda ou por seus resultados. Sua meta é liberar os seres das armadilhas da vida e do mito da liberdade. Então, talvez alguém imagine como um bodhisattva deveria ser: Gentil? Sereno? Humilde? Ascético? Essas qualidades podem parecer universalmente boas e pode parecer fácil condenar os desvios materialistas dos lamas, mas, acredite ou não, é ainda mais fácil cair vítima de sua aparentemente saudável simplicidade. Tal hipocrisia é uma máscara universal. Não consigo deixar de me sentir absolutamente hipócrita em muitas ocasiões, e posso facilmente ver a mim mesmo como o tipo de lama com quem a autora se desiludiu.

Mesmo tendo escrito isso, sei que não vou desistir de nenhum dos lucros que vier a receber, sejam tronos elevados ou tênis de marca, ou até mesmo 49 Rolls Royces (se alguém os desse para mim). Pode parecer sacrilégio e corrupção ver supostos lamas renunciantes vivendo em luxo e aproveitando todos os privilégios imagináveis. Da mesma forma, não parece correto quando um mestre supostamente compassivo e hábil se manifesta como um tirano de mente estreita. Mas devemos estar cientes de que a aparência de uma vida simples pode ser ilusória. Pode soar irônico, mas enquanto alguns poderiam achar difícil desistir das vantagens materiais, outros podem estar freneticamente preocupados em não perder sua imagem cuidadosamente construída de um simples renunciante ou um sujeito de louca sabedoria que não se importa com nada. Não é infrutífero e doloroso evitar os prazeres mundanos apenas para manter uma imagem de humildade e simplicidade? Não apenas esta pessoa não está avançando no caminho espiritual, mas neste processo também está perdendo muitos deleites mundanos.

Tendo isto em mente, não devemos condenar os poucos lamas e praticantes que são aparentemente mundanos, se, quando se trata de beneficiar os seres, eles mostram pouco ou nenhum egoísmo. Devemos venerar e seguir o exemplo de absoluta indiferença destes lamas com relação à opinião dos outros - tais como elogios por sua simplicidade ou condenação por suas mundanidades - e venerar, também, a sua falta de preocupação com relação a angariar discípulos através de sua humildade ou perdê-los devido ao seu comportamento. Ao menos devemos admirá-los por não serem hipócritas.

Diferentemente deles, sinto que estou longe de superar essa hipocrisia da falsa humildade e atingir uma indiferença genuína. Para mim, a renúncia, a humildade e a não-mundanidade são ainda os princípios que orientam meu caminho, mas não porque eu tenha visto a futilidade da vida mundana. É apenas porque eu sou um lama buddhista tibetano, e isso é o que as massas pensam que é correto um lama fazer. E parece que ainda me importo com o que as pessoas pensam.

Mesmo assim, não importa com que freqüência julgamos; é sempre em vão. Isso não significa que ser crítico é moral ou politicamente incorreto, mas simplesmente que a subjetividade está no centro de todos os julgamentos.

Originalmente publicado em www.siddharthasintent.org/Pubs/West.htm,
traduzido por Padma Thubten, revisado por Padma Dorje, Padma Rinchen e Daniel Pellizzari, editado por Pema Sönam


Sentient 6:59 PM

11.11.03

Sobre o orgulho espiritual

O orgulho espiritual é uma (...) mácula da qual temos de nos guardar. É como uma gota de veneno virulento que, quando adicionada a um prato de comida, arruína todo o ser. O tanto quanto você conhecer e tiver experienciado em sua prática, não o mostre.

Não saia por aí ostentando o que você sabe. Se você se comportar assim, você apenas garantirá que sua mente renascerá no inferno e que as outras pessoas compartilharão do seu carma negativo também. Por exemplo, eles podem considerá-lo um representante da tradição budista e dizer, "Bem, se isso é o budismo, então não, obrigado". Ou podem desenvolver visões muito errôneas sobre o Dharma. Ou podem ficar impressionados com você e tentar emular sua arrogância e orgulho espiritual, e incorrer no mesmo tipo de carma negativo por si mesmos. Por causa do nosso orgulho espiritual, acumulamos carma negativo não apenas para nós mesmos, mas para os outros.

Por Tulku Jigme Tromge Rinpoche

Sentient 4:48 PM

5.11.03

Impermanência, por Sogyal Rinpoche

Naquele dia, em seu mosteiro no Nepal, o mais velho dos discípulos do meu mestre, o grande Dilgo Khyentse Rinpoche, chegara ao fim de um ensinamento. Ele era um dos mais notáveis mestres do nosso tempo, professor do próprio Dalai Lama, e de muitos outros mestres que viam-no como um tesouro inesgotável de sabedoria e compaixão. Todos nós olhávamos para essa alta e delicada montanha humana, um erudito, poeta e místico que passou vinte e dois anos de sua vida em retiro. Fez uma pausa e olhou longe:

"Tenho agora setenta e oito anos, e vi muita coisa durante minha vida. Tantos jovens morreram, tantas pessoas de minha própria idade morreram, tantos homens idosos morreram. Tanta gente que esteve no alto e depois caiu. Tantas pessoas que, de baixo, se elevaram. Tantos países mudaram. Houve tanta confusão e tragédia, tantas guerras e epidemias, tanta destruição terrível ao redor do mundo. E apesar disso, todas essas mudanças não são mais do que um sonho. Quanto você olha em profundidade, pode perceber que nada existe de permanente e constante, nada, nem mesmo o mais fino fio de cabelo do seu corpo. E isso não é teoria, mas algo que você pode de fato entender e até ver com precisão, com os seus próprios olhos."

Retirado da obra "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer", de Sogyal Rinpoche, publicado pela editora Palas Athena.

Sentient 2:51 PM

4.11.03

Verso de P'hadampa Sangye

"Os desejos e necessidades vêm de você mesmo; mantenha-se na própria natureza da mente."

Sentient 4:12 PM